BOREOUT: QUANDO O TRABALHO ADOECE PELO VAZIO
Nem sempre o trabalho adoece pelo excesso. Às vezes, adoece pelo vazio.
Muito se fala em burnout, associado à sobrecarga, pressão e esgotamento profissional. Mas existe outro fenômeno, ainda pouco conhecido, que nasce quase do extremo oposto: o boreout.
A expressão vem de bored, “entediado”, e é utilizada para descrever situações de tédio crônico, falta de desafios, subutilização profissional e perda de sentido no trabalho.
Não se trata simplesmente de “não gostar do emprego” ou de passar um dia sem tarefas. O problema aparece quando essa realidade se prolonga e o trabalhador passa a experimentar sensação de inutilidade, desmotivação, frustração, isolamento e esvaziamento profissional.
Quando a falta de trabalho também pode adoecer
Imagine alguém contratado por sua experiência e capacidade, mas que, ao longo do tempo, deixa de receber tarefas relevantes. Ou um empregado que permanece durante horas sem atividade, é sistematicamente excluído de projetos ou recebe funções muito inferiores àquelas que poderia desempenhar.
Esse esvaziamento pode produzir sofrimento real.
Em algumas situações, pode vir acompanhado de ansiedade, alterações do sono, irritabilidade, queda da autoestima e sintomas depressivos. É importante, porém, não tratar o boreout como um diagnóstico médico automático: é necessário avaliar cada pessoa, suas condições de trabalho e eventual adoecimento clinicamente identificado.
E juridicamente?
No Brasil, a Lei nº 8.213/91 reconhece como doença do trabalho aquela adquirida ou desencadeada em razão das condições especiais em que o trabalho é realizado e que com ele tenha relação direta. A lei admite, inclusive, em situações excepcionais, o reconhecimento de enfermidades não previamente listadas quando demonstrado esse vínculo.
Assim, não é o nome “boreout” que gera direitos.
O que precisa ser demonstrado é que houve efetivo adoecimento e que as condições de trabalho contribuíram para seu surgimento ou agravamento.
Por isso, documentos médicos, histórico das funções desempenhadas, mensagens, alterações de atividades, testemunhas e demais elementos que revelem a realidade do ambiente profissional podem ser importantes.
Nem excesso, nem vazio: trabalho também precisa ter sentido
O trabalho ocupa uma parcela significativa da vida. E proteger a saúde do trabalhador não significa olhar apenas para jornadas excessivas, metas impossíveis ou pressão constante.
Também significa perceber quando alguém permanece por meses ou anos profissionalmente esvaziado, ignorado ou impedido de exercer suas capacidades.


